Chanel Primavera-Verão 2026 Alta Costura: Birds of a Feather
Introdução e Filosofia da Coleção
Devido às horas-homem e horas-mulher, às inúmeras provas e ao gasto extravagante envolvidos na alta costura, os designers muitas vezes criam pensando apenas em grandes ocasiões: casamentos, estreias mundiais, galas de caridade etc.
O instinto de Matthieu Blazy para sua primeira coleção foi fazer como Coco Chanel fazia outrora: “roupas para as mulheres irem trabalhar, irem ao teatro, ao cinema, qualquer coisa”. Por isso, sua alta costura pareceu mais relacionável do que muito do que vimos nas passarelas da semana, tornando o trabalho artesanal impressionante ainda mais exquisito.


Blazy encontrou um antídoto para o peso das expectativas: cogumelos mágicos. “Eu queria algo leve, poético e de fácil compreensão”, disse ele em uma prévia. “Fazer algo leve também me permite reduzir o drama.” Com uma coleção tão gentil quanto uma brisa de primavera, ele pisou com cuidado na tarefa de reinterpretar os códigos mais reconhecíveis da moda do século XX, voltando à essência da fundadora.


Gabrielle “Coco” Chanel revolucionou a moda com designs elegantes e fluidos que libertaram as mulheres dos espartilhos, dizendo famosamente: “Antes de sair de casa, olhe no espelho e tire uma coisa.” Blazy levou isso ao limite, eliminando sinais pesados da marca como tweed e flores de camélia para se livrar do peso da era Karl Lagerfeld. A ideia central era “mulheres em movimento — de liberdade, e roupas que não a restringem”.




O Cenário e o Set do Desfile
O desfile, realizado sob o teto abobadado de vidro do Grand Palais, não decepcionou. Um círculo de fadas formado por cogumelos gigantes em tons de rosa chiclete, fúcsia, amarelo ensolarado e outras cores vibrantes circundava a passarela — um alívio bem-vindo em meio aos céus cinzentos lá fora.


A Amanita muscaria, em particular, parecia uma sutil referência a uma rara bolsa acolchoada em formato de cogumelo da era Lagerfeld (com chapéu vermelho pontilhado de CCs brancos, carregada por Claudia Schiffer na primavera de 1992).




O designer provocou o show com um filme de animação mostrando animais da floresta trabalhando, no estilo “Cinderela”, na oficina de alta costura da Chanel.
Looks Principais e Elementos da Natureza
O look de abertura foi um clássico — mas não tão clássico — tailleur Chanel, confeccionado em musselina de seda/chiffon nude e transparente em vez de bouclé, com camadas translúcidas mal presas por finas correntes e pérolas nas barras.


Vestido por Stephanie Cavalli (modelo italiana de quarenta e poucos anos), veio acompanhado de um sussurro de bolsa matelassê derramando uma nota bordada. Essa reinterpretação luminosa evocava as múltiplas camadas da história da maison, tornando-se um palimpsesto recorrente: transparências em camadas surgiam em túnicas pastel usadas sob jaquetas curtas, sobre calças de pernas largas ou saias lápis.




Outros ícones da Chanel — o perfume N°5, o batom vermelho e a bolsa 2.55 — foram reinterpretados em musselina de seda ou reinventados como joias. O mood board estava cheio de imagens de pássaros, referência sutil ao legado da maison: da gaiola dourada de Coco no 31 da Rue Cambon ao anúncio dos anos 90 com Vanessa Paradis e à interpretação de Riley Keough em “When Doves Cry” no desfile de primavera 2025.


A plumagem surgiu através de bordados, sobreposições, pregas e tecelagem — desde plumagens coloridas vibrantes até um casaco de ráfia preto como corvo, pétalas cinza-pomba em tailleurs quase inexistentes, fios crus simulando penas de pavão em vestidos estilo flapper, e tops plissados esvoaçantes remetendo a guelras na parte inferior. Detalhes da natureza apareciam por toda parte, inclusive nos saltos bicolores em formato de cogumelo dos scarpins.




Blazy encheu a coleção de toques delicados: bordados psicodélicos ecoando o set surreal, o fantasma de regata e jeans em organza trompe-l’œil (referência ao seu trabalho na Bottega Veneta), e o destaque — um vestido de noite vermelho encimado por um casulo felpudo, a versão mais chique da “moda cogumelo”. Silhuetas totalmente pretas pontuavam os looks coloridos, como o clássico LBD de Alex Consani com mangas de chiffon esvoaçantes.
Casting, Atmosfera e Fechamento
A novidade foi oferecer uma paleta de identidades em vez de looks totais: Blazy convidou as modelos a escolherem símbolos e mensagens pessoais para bordar nas roupas. Sua abordagem no casting injetou um raro senso de alegria — Bhavitha Mandava, fresca de sua aparição viral no Métiers d’Art em Nova York, sorria e saía com uma pequena pirueta.

O clima era contagiante: a primeira fila virou karaokê de celebridades, com Dua Lipa, A$AP Rocky e Margaret Qualley fazendo lip-sync na trilha final (mash-up de “Bittersweet Symphony” e “Wonderwall”).
Um belo golpe de dopamina.“Eu não diria que é difícil desenhar em geral, mas dado o que está acontecendo no mundo, você se pergunta o que a moda pode contribuir”, disse Blazy. “Eu queria que isso fosse um sopro de ar fresco.”
