Férias e viagens com crianças neurodivergentes como transformar mudanças de rotina em experiências positivas
Julho se aproxima e, para muitas famílias, isso significa férias, viagens, passeios e a oportunidade de viver novas experiências juntos.
Mas existe uma realidade que observo com frequência no consultório: enquanto alguns pais contam os dias para viajar, muitas famílias de crianças neurodivergentes vivem uma mistura de expectativa e preocupação.
- “Será que ele vai conseguir lidar com a viagem?”
- “Como será ficar tantos dias fora da rotina?”
- “E se ele não se adaptar ao hotel, ao avião ou ao novo destino?”
Essas dúvidas fazem sentido. Afinal, grande parte das crianças autistas encontra segurança justamente na previsibilidade. A rotina não é apenas uma questão de hábito; ela funciona como uma ferramenta de organização do mundo.
Quando sabemos o que vai acontecer, nosso cérebro consegue antecipar situações, reduzir incertezas e administrar melhor a ansiedade. Para muitas crianças neurodivergentes, essa necessidade costuma ser ainda mais intensa. Por isso, o desafio das férias nem sempre está na viagem em si, mas nas mudanças que ela traz.
O cérebro não gosta de surpresas quando ainda não sabe o que fazer com elas
Quando pensamos em uma viagem, costumamos imaginar apenas o destino. No entanto, para uma criança, existem dezenas de mudanças acontecendo ao mesmo tempo.

O horário de acordar muda. O local de dormir muda. A alimentação muda. Os trajetos mudam. As pessoas mudam. Os sons mudam. A temperatura muda. Até os cheiros são diferentes.
Tudo isso exige um enorme trabalho de adaptação. É por isso que algumas crianças podem ficar mais irritadas, mais rígidas, mais cansadas ou mais ansiosas durante os primeiros dias. Não porque não estejam gostando da experiência, mas porque estão tentando organizar uma grande quantidade de informações novas.
A preparação começa antes da mala
Uma das estratégias que mais utilizo com as famílias é a antecipação. Na ABA Naturalista, sabemos que a previsibilidade reduz a ansiedade. Por isso, sempre que possível, vale a pena apresentar a viagem antes que ela aconteça.

Mostrar fotos do hotel, ver imagens do aeroporto, assistir a vídeos do local, conversar sobre o que vai acontecer, explicar cada etapa da viagem e criar um roteiro visual simples são recursos que ajudam a tornar o desconhecido mais compreensível.
Para muitos adultos, isso pode parecer apenas um detalhe. Para muitas crianças, porém, é uma forma de transformar o desconhecido em algo mais familiar e previsível.
Leve alguns pedaços da rotina junto com você
Quando tudo muda ao mesmo tempo, o cérebro pode ter dificuldade para encontrar pontos de segurança. Por isso, gosto de orientar as famílias a preservarem alguns elementos conhecidos durante a viagem.
Pode ser o mesmo travesseiro, o cobertor favorito, um brinquedo, um livro que faz parte da rotina noturna ou até mesmo uma música utilizada para dormir.
Não estamos falando de impedir novas experiências. Estamos falando de oferecer referências conhecidas em um ambiente completamente novo. Esses elementos funcionam como pontos de apoio emocionais e podem facilitar significativamente o processo de adaptação.
Viagens internacionais exigem atenção extra
Para famílias que viajam para outros países, existe ainda um fator que muitas vezes passa despercebido: o impacto fisiológico da mudança.
O fuso horário, as temperaturas diferentes, as mudanças na alimentação, o maior tempo de deslocamento e a exposição mais intensa a estímulos podem influenciar diretamente o humor, o sono, a atenção e a regulação emocional.

Crianças que já apresentam maior sensibilidade sensorial costumam perceber essas alterações de forma ainda mais intensa. Por isso, é importante respeitar o tempo de adaptação e evitar expectativas excessivas logo nos primeiros dias.
Nem sempre o primeiro dia da viagem será o melhor momento para uma programação intensa. Em muitos casos, desacelerar no início evita dificuldades maiores depois e permite que a experiência seja mais agradável para todos.
Nem toda viagem precisa ser perfeita
Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes que eu gostaria de deixar. Muitas famílias carregam a expectativa de que tudo aconteça exatamente como foi planejado. No entanto, viajar com crianças — sejam elas neurodivergentes ou não — exige flexibilidade.
Talvez seja necessário mudar um roteiro, fazer pausas, voltar mais cedo para o hotel ou até cancelar um passeio. E tudo bem. O objetivo não é cumprir uma agenda. O objetivo é construir experiências positivas, respeitando as necessidades da criança e preservando o bem-estar de toda a família ao longo da viagem.
As férias também são uma oportunidade de desenvolvimento
Quando pensamos em desenvolvimento, muitas vezes imaginamos terapias, escola e intervenções estruturadas. Mas a vida real continua sendo uma das maiores salas de aprendizagem que existem.
Viajar ensina adaptação. Ensina flexibilidade. Ensina comunicação. Ensina resolução de problemas. Ensina tolerância a pequenas frustrações. Ensina autonomia. E, acima de tudo, cria memórias afetivas.

Na ABA Naturalista, acreditamos que o desenvolvimento acontece nos contextos naturais da vida. E poucas situações oferecem tantas oportunidades de aprendizagem quanto uma viagem em família.
Cada mudança de ambiente, cada interação, cada desafio e cada descoberta podem contribuir para o fortalecimento de habilidades importantes, sempre respeitando o ritmo e as características individuais de cada criança.
Porque, quando existe apoio, planejamento e respeito ao ritmo de cada criança, as férias deixam de ser apenas uma pausa na rotina e se transformam em uma oportunidade de crescimento para toda a família.
Sobre Mayra Gaiato
Mayra Gaiato é psicóloga, neurocientista e uma das principais referências brasileiras em autismo e neurodesenvolvimento. Atua na formação de profissionais e no apoio a famílias por meio de abordagens baseadas em evidências científicas, com destaque para a ABA Naturalista, a Teoria das Molduras Relacionais (RFT) e a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). É autora de livros best-sellers e reconhecida por traduzir a ciência do comportamento em estratégias práticas para a vida real das famílias.





