Quando a IA assume o operacional, o valor humano muda de lugar
Toda semana aparece um novo artigo com alguma variação da mesma pergunta: a inteligência artificial vai acabar com o corretor de imóveis?
A resposta mais comum é tranquilizadora. “Não vai substituir, vai potencializar.” “O humano continua indispensável.” “A tecnologia é uma ferramenta, não uma ameaça.” Eu entendo o conforto dessa resposta. Mas ela não é honesta.
Deixa eu partir do que eu vivi. A Seazone opera gestão de imóveis por temporada e colocou inteligência artificial no centro da operação desde o início — não como projeto piloto, não como diferencial de marketing, mas como valor declarado: a IA entra primeiro em cada desafio.
A substituição já começou — e ela acontece nas tarefas invisíveis
Na prática, isso significa que precificação, análise de demanda, ajuste de disponibilidade e identificação de oportunidades de mercado são funções que um algoritmo executa hoje com uma velocidade e precisão que nenhuma equipe humana conseguiria replicar.
O sistema detecta que vai ter um festival de música em Florianópolis em setembro, calcula o impacto histórico de eventos similares na taxa de ocupação daquela região e ajusta as diárias antes que o gestor humano perceba que o evento foi anunciado. Isso é substituição. Não é potencialização.

O que sobra quando os algoritmos fazem o trabalho mais rápido que humanos
A pergunta que eu acho mais honesta não é “a IA vai substituir o humano?”, é “o que sobra quando a IA assume o operacional?” E a resposta, pelo menos no mercado em que a gente opera, me surpreendeu.
O que sobrou foi julgamento. Não o tipo de julgamento que vem de análise de dados, porque a IA faz isso melhor. O julgamento que vem de entender que um proprietário não está perguntando sobre taxa de ocupação quando telefona às 22h, ele está com medo de ter tomado uma decisão errada com um patrimônio que levou anos para construir.
O que sobrou foi a capacidade de sentar numa reunião com um investidor, ler o que ele não está dizendo e responder ao problema real, não ao problema declarado. O que sobrou foi confiança, que não escala em algoritmo nenhum.

Confiança, leitura emocional e contexto ainda não escalam em algoritmo
Mas tem uma condição. O humano que sobrevive ao lado da IA não é o mesmo humano de antes. É alguém que entende o que a máquina faz e, por isso, sabe exatamente onde ela para. Quem não fez esse esforço de entendimento vai continuar fazendo, em ritmo humano, o que a IA já faz melhor e mais barato. E essa sim é uma posição insustentável.
A McKinsey estimou, em relatório de março de 2026, que a IA agêntica pode desbloquear entre US$ 430 e 550 bilhões no mercado imobiliário global, principalmente via redução de custos operacionais e aceleração de transações. É um número grande.
Mas o que esse número não captura é o que acontece com o profissional que ficou do lado de fora dessa transição esperando que o mercado mantivesse as regras antigas.
A pergunta certa não é se a IA vai substituir o corretor. É se o corretor vai entender o que a IA ainda não consegue fazer — e se vai ser bom nisso antes que o mercado exija.
Eu não tenho resposta fácil para essa questão. Mas sei, por experiência, que as empresas que tratam IA como ameaça a ser contornada estão tendo uma conversa diferente das que trataram como ponto de partida
Sobre Monica Medeiros
Mônica Medeiros é co-fundadora da Seazone, advogada, mestre em Direito pela UFSC e palestrante em eventos de real estate e investimentos.





